quarta-feira, 29 de março de 2017

A conspiração Neo Liberal nos Países Periféricos

" Como os acordões neoliberais interferem diretamente na mobilidade urbana da  cidade e nos direitos essenciais da população "


                Logo após a segunda grande guerra, representantes do imperialismo norte-americano, juntamente com chefes de estado das nações europeias e teóricos da politica e da economia realizaram nos Alpes Suíços, um encontro para elaborar um projeto de Estado Mínimo, qual seria chamado Neoliberalismo. A estratégia principal dessa politica seria a internacionalização ao novo paradigma econômico, cuja origem está na fase mais avançada do capital industrial, a cartelização associada com o capital especulativo financeiro criam as grandes corporações com poder econômico para influir na politica dos países periféricos, impondo-lhes diretrizes de governo e ditando “cartilhas econômicas” de austeridade e arrocho.

                No Brasil, esse sistema de dependência econômica através da dívida, segundo a CPI da Divida Externa no Congresso Nacional, teve origem na década de 1970, no período da Ditadura Militar, em que houve vultosos compromissos não transparentes, coincidindo com o fim da paridade “dólar – ouro” nos EUA , em 1971 , com a emissão de dólares no sistema bancário a taxas de juros de 5 a 6 % ao ano. Estas taxas cobradas por bancos internacionais privados norte-americanos e ingleses (conhecidas como “Prime” e “Libor” respectivamente) eram consideradas baixas e atrativas, mas, com a condição de seguir as leis flutuantes do mercado financeiro, insto é, uma faca de dois gumes para quem foi com sede ao pote (como é caso brasileiro), pois, em 197
9 as taxas subiram para 20,5% anuais!


                Tal aumento impactou brutalmente a divida externa brasileira e levou à crise financeira dos anos 1980 e em consequência o monitoramento fiscal das contas do governo pelo FMI para garantir o pagamento dos juros aos credores internacionais, chegando a comprometer 45,05% do orçamento da União para esse fim.

                A fazer parte dessa reserva orçamentária os sucessivos governos burgueses tem lançado mão nos impostos referentes aos estados e municípios, deixando-os penalizados de uma fonte de recursos, o ICMS, imposto sobre circulação de mercadorias e serviços, através de uma lei complementar 87/1996 – a chamada lei Kandir, de estimulo à exportação para o pagamento da divida externa.

                Além da subtração de impostos de estados e municípios, os governos burgueses vêm mantendo uma engenharia financeira de superávit primário, que é a contenção forçada dos gastos públicos para atingir a meta imposta pelo FMI ao país desde 1988, a ter como base o percentual do PIB, referente aos gastos primários, ou seja, sobre gastos e investimentos sociais.

                Tal realidade nos foi imposta, aproximadamente, vinte anos após a reunião de chefes de Estado e intelectuais dos países hegemônicos nos Alpes Suíços. Portanto, após o Golpe de 1964 e os vinte anos de implantação efetiva de medidas neoliberais durante a Ditadura, todavia os sucessivos governos burgueses, mesmo depois da redemocratização do país em 1984 apenas mantiveram a manutenção do Status Quo da politica Neoliberal, todos eles governaram de acordo com o consenso de Washington, fazendo concessões às exigências do capital internacional e no aprofundamento da Financeirização do país, com benesses tributárias aos especuladores, tal como a lei 11.312/2006, que reduz a zero imposto sobre rendimentos financeiros.

                O atual governo golpista de Temer com sua Pec.241/55, que congela por vinte anos os investimentos públicos em saúde e educação, aprofundou radicalmente o contingenciamento ocorrido no governo anterior, que ultrapassou os 70 bilhões de reais nas áreas essênciais: Saúde, Educação, Habitação, Transporte, etc. Enquanto o Estado fez gastos faraônicos com a Copa do mundo e as Olimpíadas.


               
  O momento cíclico de crise internacional do Capitalismo faz com que este ataque caia ferozmente sob as conquistas politicas e econômicas da Classe trabalhadora. É preciso que ela esteja coesa e fortalecida politicamente para enfrentar esses ataques advindos da estrutura do Capital, sua economia, ou da superestrutura, das leis, do Judiciário, da educação, comunicação, que formam o aparato ideológico de dominação do Estado Burguês.
                Dentro desse contexto de crise e cortes em serviços sociais para beneficiar o pagamento de juros a credores internacionais e nacionais é que exibimos a escandalosa cifra de mais de 42 milhões de pessoas impedidas do direito constitucional de ir e vir, por não terem condições de pagar uma passagem de ônibus, ao passo que no final do ano passado a frota de veículos particulares chegou a 50 milhões de veículos, os quais impactam nos congestionamentos das grandes metrópoles brasileiras.
                Vale salientar que o governo Lula, em parte, contribuiu para isso, no artigo 177, a constituição determina que os recursos da CIDE (Contribuição de intervenção no domínio econômico) sejam utilizados em investimentos em transportes públicos, entre 2002 e 2008 a arrecadação foi de R$51,8 bilhões e Lula investiu apenas 19,9 RS bilhões, desviando parte desta arrecadação para pagamento da dívida pública. Além disso, para aumentar o caos na Mobilidade Urbana, o ex-governo Dilma próximo do fim de seu mandato, para fomentar ainda mais o consumo de veículos individuais,
desonerou impostos das empresas automobilísticas.

                A luta pelo Transporte Público livre da mercantilização e da cartelização é árdua e ininterrupta, todavia ela trouxe avanços, tal qual a inclusão do direito de ir e vir como um dos direitos básicos constitucionais (juntamente com Saúde, Educação e Assistência Social), assim como garantiu a implementação do passe livre estudantil em várias cidades e capitais pelo Brasil e até algumas poucas cidades como Maricá – RJ onde foi implantado Passe Livre Integral para todos os habitantes. Porém, como já salientamos, os sucessivos governos Burgueses agem como fim para proteger e assegurar o Status Quo Neoliberal, e tais direitos sociais básicos sempre são marginalizados em detrimento da gestão do Estado em prol da acumulação de Capital pelas Classes Dominantes. Por isso, é vital manter a luta unificada da Classe Trabalhadora para a manutenção e ampliação das politicas públicas básicas, tais como o direito ao Transporte Público, e para tanto é preciso fortalecer a resistência  Classista e organizada por fora das instituições burguesas, almejando assim uma resistência ampla entre diversos movimentos sociais, sindicatos e organizações que não caiam no reformismo do Estado Burguês e no cooptação pelos interesses da manutenção do Status Quo Neoliberal. 

TARIFA ZERO JÁ!! POR UMA VIDA SEM CATRACAS!


Escrito por Edilson Freire & Cid Oliveira, 
INTEGRANTES DO COLETIVO DO MPL NATAL 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

REVOLTA DO BUSÃO - II

O Espetáculo da Violência como Intimidação nos Protestos em Natal


Edilson Freire Maciel


            A violência institucionalizada através da anestesia dos corpos, estimulada pela mídia alienante do entretenimento, voltada para os interesses do mercado, condicionando seres na busca dos sonhos de consumo, mantendo-os numa padronização social semelhante às gôndolas dos supermercados: classificados, etiquetados, numerados, para atender ao fluxo ininterrupto, neurótico da sociedade do desejo.

            Esses fluxos estão representados nas vielas, ruas e avenidas, assemelhando-se à esteira da linha de produção fabril, cuja finalidade é o mercado potencializado pela mais valia no seu mecanismo brutal de manipulação e controle, de territorialidade segregacionista, legitimada pelo aparelho ideológico de estado.
            A sociedade de caráter monocrático, estruturada politicamente na hegemonia oligárquica, é a mais conservadora e anti-republicana nos controles de conservação dos fluxos, de sua permanência, manipulação e anestesia. Não admite rupturas com os pactos estabelecidos com a classe dominante, em detrimento dos interesses da população.
            Isso ficou evidenciado na barbárie perpetrada pelos órgãos de repressão, na noite de quarta feira, dia 15 de maio. Os natalenses viveram momentos de terror na Zona Sul, na Avenida Salgado Filho. Os manifestantes encontravam-se pacificamente na avenida, quando foram vítimas de brutal repressão. Um estudante da UFRN, ao tentar proteger sua professora, que quase foi jogada ao chão por um pelotão de polícia em marcha contra os estudantes, foi brutalmente espancado e preso. Saiu com um ferimento na cabeça. Outro colega sofreu o mesmo golpe, que resultou em dezoito pontos.

            O horror não para aí, um manifestante de 63 anos de idade, indefeso, em atitude evidenciada de paz, quando se dirigia a um pelotão de policiais da ROCAM, na tentativa de estabelecer um diálogo, tem repetidamente duas bombas de gás lacrimogêneo arremessadas aos seus pés. Logo em seguida, o BPChoque ataca a retaguarda da manifestação, numa parafernália de tiros de borracha, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo, dispersando os manifestantes, acossando-os, levando boa parte em fuga, por ruas laterais.
            Os que permaneceram na avenida foram encurralados pela Polícia Rodoviária Federal e a cavalaria da Polícia Militar. Um grupo de policiais já se encontrava em cima do Viaduto Quarto Centenário, a disparar contra os estudantes, num verdadeiro massacre, em operação típica de emboscada.
            Uma estudante, indefesa, com mãos para cima, é atingida à queima-roupa por bala de borracha, além de sofrer ataques morais dos policiais. Uma senhora de 54 anos foi ferida à queima-roupa, na perna, por bala de borracha na calçada de sua casa, quando prestava socorro a um estudante também ferido. Nas redes sociais corria a notícia que o ferimento na citada senhora se complicava num hospital da cidade, apesar do uso de vários antibióticos, segundo relato indignado de sua sobrinha. Um estudante foi atingido por quatro tiros de borracha em uma das pernas. Outros foram covardemente atingidos pelas costas, entre outras partes do corpo. Alguns, na cabeça e na face.
            A estratégia utilizada pela repressão contra a população civil indefesa extrapolou o conhecimento clássico sobre estratégia militar. Segundo os cânones da Arte da Guerra, deve-se deixar uma rota de fuga para o inimigo, evitando que ele lute desesperadamente entre a vida e a morte, tornando-se perigoso. Isso, vale salientar, é uma estratégia utilizada entre dois exércitos armados e em luta.

            Quanto a encurralar e emboscar estudantes, na sua maioria mulheres e adolescentes, além da desproporcionalidade de força, é crime e covardia. Foi assim que a soldadesca ensandecida atropelou todos os princípios das convenções internacionais que são obrigados a cumprir, como toda força armada regular, inclusive guerrilheira, quando em controle de áreas, sob pena de ser caracterizada como bandoleira.
            Essa banalização da violência institucionalizada reflete o caráter opressivo e antipopular do estado monocrático na manutenção e controle do fluxo único, voltada para a defesa intransigente e armada do poder hegemônico do mercado.
            Nesse sistema, as forças policiais são treinadas para reprimir o povo tendo como máxima burguesa a manutenção da ordem, estando assim divorciadas da realidade em que vivem. Tal esquizofrenia das forças repressivas leva à subjetividade do poder, isto é, a guarda pretoriana se acha rei, e este consente, ao temer, que aquela se ache povo.
            Essa esdrúxula realidade ocorreu no massacre aos manifestantes, quando o comandante do BPChoque, ao ser interpelado por um vereador sobre despropositada violência, respondeu que sua tropa, ao sair à rua, não iria distribuir flores e que também não respeitava políticos. Nem mesmo a governadora.
            A Governadoria silenciou diante de tamanha petulância. O chefe da guarda tornara-se imperador, o acordo tácito entre o poder oligárquico e seu braço armado fora mantido, a despeito da perplexidade da sociedade. Com o vácuo político governamental, as instituições começaram a se manifestar em repúdio à violência policial. Antecipadamente, as redes sociais demonstravam sua indignação com a barbárie repressiva e o silêncio pactual promíscuo do governo com o poder hegemônico do mercado.
            Nesse diapasão político perverso, o comandante da desastrosa operação militar foi afastado do comando, sob alegação de trâmite interno inerente às necessidades burocráticas e funcionais da corporação. O governo não assumiu uma decisão política no afastamento do subordinado. Com essa atitude, legitimou seus atos atrabiliários e, perigosamente, manteve a esquizofrenia militarista da subjetividade do poder, abrindo espaço para a insegurança e o arbítrio.

            Em contrapartida, cresce a indignação e o amadurecimento do movimento Revolta do Busão, cuja estratégia política é a universalização do acesso à cidade através da reforma urbana e do transporte público, como direito essencial, com extensiva gratuidade à população. Aliás, uma bandeira de luta iniciada em meados do século XIX, na Argentina e, atualmente, uma realidade em 27 cidades dos Estados Unidos e várias cidades da Europa.

            Até quando, no Brasil, essa luta legítima será tratada com tanta barbárie?
Vídeo da manifestação do dia 15 de Maio de 2013, aonde o Batalhão de Choque da Polícia Militar prende uma professora da universidade que pedia para eles não fazerem uso da violência e em seguida prendem um estudante que tentou impedir a injustiça que estava sendo feita com a professora.

Vídeo da manifestação passando pela Av. Salgado Filho

Vídeo da intimidação policial no local de concentração da manifestação

Vídeo do final da manifestação, fala de manifestantes.
Vídeo da movimentação ostensiva da polícia preparando-se para o confronto

Vídeo de quando a manifestação foi encurralada debaixo do túnel da Salgado Filho, pela Polícia Rodoviária Federal de um lado e pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

REVOLTA DO BUSÃO I

Neologismo e Estética dos Indignados nos Protestos em Natal.




            REVOLTA DO BUSÃO. Esse foi o neologismo usado pelos estudantes para caracterizar o movimento contra o aumento abusivo e ilegal das passagens do transporte coletivo em nossa cidade.

            Essa etimologia deriva do latim, omnibus: para todos, ônibus, busão. Representam signos caóticos da urbe, legitimados dessa forma, pela precarização dos serviços prestados à população através do sistema privado $ETURN, promitente concessionário da exploração das linhas viárias do perímetro urbano de nossa cidade.

            Além da má prestação dos serviços de transporte em todos os níveis, a população padece sob uma política voltada para atender aos interesses dos pequenos e poderosos grupos econômicos, por meios promíscuos, que atentam contra os interesses da maioria da sociedade.

            Tal conspiração entre o ente público e o privado resulta em prejuízos para as necessidades essenciais da população, tornando esses serviços inexistentes ou, quando não, sucateados, construídos para não funcionar. Tudo seguindo a lógica perversa do capitalismo de raízes culturais escravistas, em que a coisa pública, o faz de conta, na exemplificação do transporte público, transforma-se na metáfora da senzala: espaço coletivo de acondicionamento de corpos roubados nas suas identidades históricas e individuais.

             Dessa forma, apinhados qual sardinha enlatada, numa arquitetura despojada de frisos e arabescos, sem eira nem beira, semelhante ao alojamento de escravos nos terreiros da casa grande, ilhados pelos canaviais.

            O capitalismo desenvolvido nos trópicos, de herança colonial, tem a dicotomia ideológica escravista, centrada no referencial geográfico de classe: o centro e a periferia. O centro, onde se concentra o comércio e a infra-estrutura. A periferia, carente da infra-estrutura existente no centro; abriga a classe trabalhadora que tem sua atividade laboral no centro da cidade.            O centro, para manter sua dinâmica comercial, necessita do fluxo de trabalhadores e clientes; para tal fim, depende do transporte público e vias descongestionadas.  

            Isso demonstra que vários fatores influem no equilíbrio de interesses dos que habitam a cidade, recaindo sobre os trabalhadores o excesso de tempo necessário para a produção de sua força de trabalho, acarretando-lhes “stress” e cansaço, o que, por sua vez, influi negativamente no desempenho produtivo, quando não, o atraso no serviço, obrigando-os a compensar com horas extras as horas não trabalhadas.

             Parte dessa gama de necessidades a serem supridas está inserida na atual conjuntura da Copa do Mundo, a ser realizada em vários estados do país, com o projeto de mobilidade urbana, que contempla a ampliação de avenidas, construção de viadutos, túneis, instalação do VLT- veículo leve sobre trilhos e construção de ciclovias.

             Tal conceito de mobilidade urbana é hegemônico, voltado para atender as necessidades imperiosas do atual modelo econômico que priorizou o projeto urbanístico em função do automóvel, além de excluir do processo de discussão as representações populares e suas demandas.

            O conceito de mobilidade urbana, segundo a ótica popular, tem como objetivo principal o acesso da sociedade aos centros urbanos, projetados para suas diversas funcionalidades, com foco na democratização e socialização do espaço público, proporcionando qualidade de vida à população. A razão das cidades está centrada nas relações humanas e no prazer do espírito, ao contrário da distopia vigente que predomina nos grandes centros, voltada e planejada exclusivamente para atender às necessidades do mercado.

            A heteronomia do espaço é ditada de acordo com a sociedade de consumo. Essa determina, exerce o seu poder sobre os espaços arquitetônicos de entretenimento, confinamento e exclusão, dando-lhe legitimidade política, social, jurídica e científica na criação do senso comum.

            A Revolta do Busão sacudiu a estética narconormatizada da cidade ao provocar a reação das massas, através da ruptura revolucionária do seu quotidiano insípido, instrumentalizado pela sociedade produtora de desejos.

            Ao ocuparem as ruas com bandeiras, faixas, cartazes, indumentárias pró-Primavera Árabe, apitaço e batucada, os manifestantes exerciam o acesso pleno à cidade, motivados pela indignação, ao invocarem o direito legítimo e democrático de ir e vir, na luta contra o aumento ilegal e extorsivo do preço das passagens.

            O estado mínimo neoliberal, comprometido com a ordem hegemônica do capital, logo se fez presente no restabelecimento da “ordem” por meio de seu sistema de difusão do medo, a repressão e seu aparelho ideológico de estado, a imprensa, que criminalizava os manifestantes na tentativa de intimidá-los. 

            Imbuídos dos conceitos universais de liberdade, direito e democracia, os estudantes, na sua luta, diziam não ao medo, ao ocuparem a Câmara Municipal, no dia da votação sobre a legitimidade, ou não, do aumento das passagens, e assim obtiveram vitória parcial, pois o sindicato dos empresários de transportes coletivos, ao ser derrotado na Câmara, recorreu à justiça, e, em represália suprimiu as estações de transferências, causando intranquilidade social na cidade.

             Os estudantes responderam às escaramuças dos que transitam frequentemente de forma promíscua nos escaninhos do poder, ao saírem às ruas pelo retorno das estações de transferência. Ao ocuparem a BR 101, os seguranças do movimento foram presos sob a alegação de desacato à autoridade por chamarem os policiais rodoviários federais de fascistas. O movimento ficou acéfalo. Ações pré-determinadas em assembleia não estavam sendo cumpridas, fugiam aos propósitos do movimento, dispersando-se após o roletaço dos estudantes em frente ao Natal Shopping e Via Direta, para o retorno às suas casas.

            Um pequeno grupo rumou ao Midway Mall onde houve violência policial. Tiros de balas de borracha e cacetadas. Um ônibus é incendiado. Um professor de história é espancado e preso sob a acusação de ter causado o incêndio. Na mesma noite, um grupo de pessoas ateia fogo a um ônibus no terminal do Bairro Nordeste, Zona Oeste da cidade.
            A imprensa reacionária, sempre parcial, criminaliza o movimento. A polícia aterroriza com ameaça de prisão, como se sua função não fosse de xeretar, afirma que irá monitorar as redes sociais e punir aqueles que, nas redes, difundirem a violência.

            A justiça dá o veredicto contra o aumento das passagens e a suspensão das estações de transferência, sob a alegação de crime contra a economia popular. Encerra-se a primeira fase da luta, que tem como princípio, o MPL. - Movimento Passe Livre, como direito social extensivo a toda sociedade, segundo o conceito popular de mobilidade urbana: investimento no transporte público de qualidade, acesso e apropriação do espaço público no sentido do direito à cidade, que hoje é negado a mais de quarenta milhões de pessoas, privadas desse direito fundamental de ir e vir, por não poderem pagar passagem de ônibus.
            Qual estética e neologismo motivarão as próximas utopias dos indignados em Natal?


                     


                                                       Edilson Freire Maciel

                                                                 Articulista

terça-feira, 29 de novembro de 2016

LICITAÇÃO DO TRANSPORTE PÚBLICO: O ASSALTO À POPULAÇÃO, LEGALIZADO PELO ESTADO.



Em 18 de Julho de 2013, o Movimento Passe Livre Natal ocupou o pátio da Câmara Municipal de Natal, diante de um processo licitatório fraudulento, que seria realizado em 7 dias sem nenhuma participação da população neste processo que dita como funcionará o transporte público nos próximos anos, somente tinham acesso empresários, prefeitura e a câmara municipal, reiterando o que acontece frequentemente: Acordões entre políticos e empresários que no final das contas só interessam à eles mesmos. Reivindicamos 3 pontos para que desocupássemos: 1 – A abertura da Caixa Preta do $eturn ;2 – O adiamento do processo licitatório para que durante este tempo o legislativo iniciasse o diálogo com a população através de fóruns poulares e deliberativos; 3 – A abertura imediata da Caixa Preta do $eturn.

Durante a negociação, o então presidente da Câmara, Albert Dickson (apelidado pelos ocupantes de Dickson Mengele, sobrenome de um famoso oftalmologista nazista que realizava experimentos cruéis nos campos de concentração. Albert Dickson é oftalmologista e recebeu esse apelido depois de ordenar tamanha crueldade e covardia para os/as ocupantes naquele dia, incluindo mulher grávida e senhor de idade), nos apresentou uma proposta para desocupação que concordava com os termos acertados por nós, menos quanto à Caixa Preta que ele acusava ser de responsabilidade do poder executivo. Ficamos de redigir o documento no gabinete do Vereador Hugo Manso do PT e o então presidente nos deu um prazo de 15 minutos. Em menos de 5 minutos fomos cercados por guardas municipais, encurralados, espancados, eletrocutados, ficamos cegos temporariamente pelos sprays de pimenta e enquanto isso Albert Dickson e o procurador geral Carlos Castim, fugiam pelas portas dos fundos.

Segue vídeos da represália:

Naquele momento barramos a licitação, porém mesmo com toda a pressão popular e o acordo que não chegou a ser assinado por causa dessas agressões, a Câmara Municipal teve a ousadia de fazer assembleias populares mal divulgadas, mal localizadas, onde a população não tinha poder nenhum de deliberação nem de participação. Só tinha voz entidades convocadas pela prefeitura. O resultado disto é que a licitação veio em 3 meses, com várias promessas e com o aumento das passagens. Entre as promessas e o aumento proferido ao povo, só nos ficou o aumento.

Agora em 2016 vivemos uma outra conjuntura, a prefeitura e os empresários foram bem mais minuciosos, promessas mais ousadas como ar condicionado (que já estava na licitação anterior, porém até agora ninguém nunca viu), criação de fóruns para fingir a participação da população (nesses fóruns usuários de ônibus não têm direito à fala, somente representantes de órgãos burocráticos da gestão do trânsito e transporte da cidade), uma clara tentativa de manipular a opinião alheia e silenciar aqueles que combatem a ganância destes empresários megalomaníacos, fingindo que nos dão direito de participar das decisões.

A transparência nunca foi o ponto forte do $eturn, pelo contrário, é o seu ponto fraco. Há mais de 20 anos essa organização patronal monopoliza o sistema do transporte público, dentro do qual nessa ambição por poder, já responderam até por incêndios criminais contra alternativos. Confira matéria aqui ou aqui.

Nós do Movimento Passe Livre seguimos nos organizando contra os retrocessos vigentes com a investida liberal no Brasil e no mundo, portanto em nenhum momento podemos nos esquecer daqueles que quanto mais lotado e desconfortável for o ônibus para nós, melhor será para seus bolsos.

Convidamos todos e todas à nos organizarmos autonomamente, através de coletivos de amigos, do hip hop, do grêmio da escola, da associação do bairro, a galera da quebrada, para combatermos a ganância dos megalomaníacos tubarões do transporte da cidade, o $eturn que encontra forças e apoio para nos roubar e nos excluir cada vez mais do sistema do transporte público nos poderes públicos executivos e administrativos.



#PorUmaVidaSemCatracas #ViolentoÉOEstado #LicitaçãoÉPrivatização #Autogestão 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

OUTUBRO DE LUTA PELA TARIFA ZERO


26 de Outubro é o dia nacional de lutas pela tarifa zero, tirado pela Federação do Movimento Passe Livre, que resulta na semana nacional pela tarifa zero, a semana vigente da data. Como de costume os coletivos locais se articulam e preparam durante esta semana várias atividades e até mesmo atos.

Aqui em Natal não fizemos diferente: Transformamos a semana de luta pela Tarifa Zero em um mês de atividades relacionadas ao tema. No início de Outubro fomos à Escola Estadual Ana Júlia antes da ocupação e levamos o debate da Tarifa Zero e de como ela se relaciona diretamente com outros Direitos Essenciais garantidos pela Instituição. Conversamos também sobre mobilizações populares e autogestão.

A Semana de Lutas é sempre a semana do dia 26 de Outubro. Este dia representa a luta pela Tarifa Zero pois foi uma data emblemática da luta pelo Passe Livre estudantil em Florianópolis, solicitado através de um projeto de lei na câmara dos vereadores em 2004, antes mesmo do surgimento da Federação do Movimento Passe Livre. Hoje a pauta progrediu e nesta data clamamos pela Tarifa Zero nos ônibus e a autogestão dos transportes públicos.
No dia 23 de Outubro deste ano, domingo da semana de lutas, fizemos uma cultural na Escola Estadual Augusto Severo que encontra-se ocupada pelos/as secundaristas, levando um som, hip hop e troca de ideias com a juventude ocupante.



Na segunda, 24, às 11 da manhã pontualmente, fizemos uma marcha fúnebre, todos de preto e com sacos de lixo preto na cabeça e portando uma mega catraca de 2 metros, nos direcionamos à porta da prefeitura e por lá ficamos por uns 10 minutos presos à catraca e até mesmo enforcados por ela. Teve uma repercussão positiva, convidamos uma mídia tradicional que compareceu, mas não com o repórter, só com o fotógrafo e não deram a devida importância, nem publicaram nada sobre. Convidamos o Coletivo Foque de mídia alternativa e esse foi totalmente parceiro, conversou conosco, nos entrevistou, tirou fotos e fez um ótimo registro audiovisual, dando a devida importância para a luta e para as Pautas Populares.


Na quarta 26, voltamos à Escola Estadual Augusto Severo e passamos um filme qual sinalizamos que seria interessante passar para os ocupantes pois fala sobre uma situação onde jovens inconformados com as reformas do governo vigente que trariam consequências para a estrutura e o acesso à direitos básicos, decidiram reunir-se na cidade de Gênova a fim de interromper a reunião da cúpula do G8 naquela cidade no ano de 2001. O filme chama-se Diaz.

Encerramos a semana com a cidade procriando ocupações, catalisado pelo poder revolucionário da juventude que hoje, depois de 2013 estão dispostos a se organizarem de maneira mais horizontal e que possibilita uma maior participação daqueles e daquelas que eram afastados da luta que seguia um viés mais burocratizado. Vimos várias lideranças surgindo dentro das escolas ocupadas e não um líder só, vimos jovens discutindo autonomia, Direito à cidade, feminismo, comunicação popular, dentre vários outros assuntos tão transformadores que não cabem dentro das salas de aula.

Vimos em especial neste mês de Outubro, que toda aquela luta de 2013 não foi em vão, ela veio para dar início à insurgência de um levante negro, orgânico, horizontal, das favelas que hoje contabilizam mais de mil ocupações por todo o Brasil. Além de tudo, Outubro veio para dizer que o Movimento Passe Livre estará sempre na luta contra o sistema capitalista, contra os empresários usurpadores dos nossos Direitos e com a plena certeza de que: “AMANHÃ VAI SER MAIOR!”
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